SANTA CASA

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A Santa Casa de Campo Grande é hoje um hospital de referência, de grande porte e alta complexidade em várias especialidades. É a quarta Santa Casa dentre as mais de 2.600 congêneres espalhadas por este Brasil, com uma bonita história que merece um dia ser recolhida e melhor composta para se inserir entre os maiores feitos do povo desta terra.

No intuito de cumprir a missão de registrar algo a respeito da criação da nossa Santa Casa, mas reconhecendo que para bem se valorizar qualquer fato histórico seja muito importante que nos situemos no espaço e no tempo em que tal fato aconteceu é forçoso um resvalar ao passado em busca da origem das Santas Casas e no cenário que compunha a vila de Campo Grande. Portugal, século XVI : A rainha D. Leonor, induzida por seu confessor Frei Miguel Contreras, organiza uma instituição destinada a abrigar e atender os doentes desvalidos, mendigos e desamparados, numa época em que todos nasciam, se tratavam, se curavam ou morriam em casa, já que não haviam hospitais. Nasce daí a primeira Santa Casa de Misericórdia em Lisboa, idéia que a generosa alma lusitana propagou por todo o país e pelas suas colônias. Assim é que, na colonização do Brasil, logo após o seu descobrimento, entre 1540 e 1547, surge em Santos – SP, com Brás Cubas à frente, a primeira Santa Casa, seguida da de Vitória – ES em 1545, Olinda – PE em 1556 e Ilhéus – BA em 1564. A Santa Casa do Rio de Janeiro criada em 1572, foi o principal hospital da América do Sul por suas características de atendimento e pela equipe médica que possuía. Sempre brotando as Santas Casas nos primórdios da formação das cidades brasileiras, de tal forma proliferaram que no início deste século existem mais de 2.600 dessas Instituições atestando, de forma randiloqüente, o quão generoso e solidário é o povo brasileiro.

Vale notar que tal concepção humanitária só germinou e persiste em Portugal e países que por ele foram colonizados graças à filantropia espontânea das comunidades que sempre se anteciparam às ações do governo, o qual ainda é, em todos os outros povos do mundo, o responsável por esse importante problema social.

Há de se reconhecer ter sido a Igreja Católica a grande aliada na propagação de tal concepção, estimulando a formação de Irmandades, dirigidas sempre por treze mesários a comporem a Mesa Administrativa, já que treze eram os participantes da Santa Ceia. O inolvidável padre Antônio Vieira, em um dos seus tão famosos e divulgados sermões, chegou a advertir aos fiéis que onde não houvesse ainda hospital, que se transformasse a igreja em hospital, eis que a imagem de Cristo que se vê na igreja é imagem morta, que não padece, enquanto o irmão desamparado e doente é a imagem vida de um Cristo que sofre. Inspirados em motivos de forte apelo de solidariedade humana e cristã, as Santas Casas, que de início se constituíam num compromisso natural da comunidade que por isso as mantinha, afinal foram forçadas a abrigar doentes que não só aqueles desvalidos,  por duas razões: a inexistência de casas hospitalares para socorrer ao restante da população, e a necessidade de suprimento financeiro ante o sacrifício da coletividade em continuar satisfazendo os encargos gerados pelo continuado aumento dos necessitados.

O modelo lusitano de se atender aos desassistidos seduziu, no engatinhar do século XX, os líderes da pequena vila plantada na confluência dos córregos Prosa e Segredo, a Santo Antônio de Campo Grande, cujo casario pobre se expandia celeremente para abrigar as correntes migratórias atraídas pela luz de um novo sol!

Em volta e além de Nioaque – cidade mãe, a jovem Aquidauana, Miranda e Coxim eram apenas longínquos povoados e vilas incipientes, tendo como único pólo a heróica Corumbá, até então o principal portal de entrada do mundo em terras da antiga província de Mato Grosso.

Lembramos que todos os sírios, portugueses, italianos, libaneses, alemães e espanhóis aqui aportaram após percorrerem o mesmo trajeto usado pelos brasileiros do litoral, a partir do Rio de Janeiro ou Santos, chegando por via marítima a Montevidéu ou Buenos Aires, pelo Rio Prata e Rio Paraguai até Assunção e, desta capital, em navios de menor calado e Rio Paraguai acima, atingiam Corumbá. Prosseguindo pelo Rio Paraguai e Rio Cuiabá alcançavam a não menos heróica Cuiabá.

Esse era o natural meio de acesso à nossa Província, exceptuando-se as rotas que despontavam as cabeceiras do Rio Paraná só rompidas por ousadas tropas de burros, trilhas dos bandeirantes, trilhas seguidas pelos legionários que acançaram sobre o desconhecido e no retorno escreveram a epopéia da Retirada da Laguna. O rio Paraná com suas densas matas habitadas por onças e índios remanescentes, constituíam-se, então, em barreiras intransponíveis. Alguns desbravadores atingiam estas plagas do sul de Mato Grosso em batelões que, saindo do Rio Tietê, navegavam pelo Rio Paraná, Rio Pardo e o Anhandui, terminando o percurso em carros de boi.

Mato Grosso, pode-se afirmar, só foi efetivamente incorporado ao Brasil pela vontade do Presidente Afonso Pena quando determinou a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, ligando Bauru a Porto Esperança, na barranca do Rio Paraguai. Esta obra realizada com duas frentes de serviço, uma partindo de Bauru e outra de Porto Esperança, concluiu em 1914 quando as duas frentes se encontraram nas proximidades da vila de Campo Grande, exatamente onde hoje se situa a Estação de Ligação.

Por oportuno recorde-se que a ligação férrea de Porto Esperança em Corumbá, com a necessária construção da ponte sobre o Rio Paraguai, bem como o ramal férreo a Ponta Porã, foram de iniciativa de Getúlio Vargas.

1914 – O trem de ferro que vinha do Rio de Janeiro e das Piratiningas, com sua locomotiva a lenha, já apitava na chegada alvoroçando o trepidante vilarejo com o seu intenso movimento de cavaleiros, carroças, muitas carroças, charretes e carros de bois.

Olarias, serrarias, selarias, bolichos e mais bolichos, empórios de secos e molhados com venda de tecidos, ferramentas e armas, prostíbulos e mais prostíbulos, um far-west convulcionado sempre por forasteiros e foragidos de Goiás e norte de Mato Grosso, que só não encharcaram de sangue o nosso solo graças à ação corajosa de magníficos líderes como Amando de Oliveira, Bernardo Franco Baís, Manoel Inácio de Souza, Eduardo Santos Pereira e Arlindo de Andrade Gomes, o jovem pernambucano de 27 anos e ilustre juiz em Nioaque que, destacado para ser o primeiro juiz de Direito na recém criada comarca, aqui chegou a 11 de maio de 1911 a cavalo e após cinco dias de viagem!

Espantoso o avanço do casario para ocupar as ruas largas, com duas majestosas avenidas, traçadas graciosamente em 1911 pelo Tenente Engº. Militar Temistocles Paes de Souza Brasil, a pedido da Intendência Municipal.

Assim era àquela época a promissora vila de aproximadamente 1000 habitantes, cujos registros existentes falam de sua iluminação pública – cerca de trinta lampiões a querosene esparsos pelos principais arruamentos.

Vale citar que em 1916 já se ampliava enriquecida, ano após ano, exatamente em agosto de 1917, uma comissão composta por Eduardo Santos Pereira, Augusto Silva, Otaviano de Mello, Bernardo Franco Baís, Benjamim Corrêa da Costa, Enoch Vieira de Almeida e Cap. Médico Eusébio Teixeira encabeça uma lista com os seguintes dizeres:Lista destinada à inscrição de pessoas que contribuem, dando uma esmola, para a criação da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande, refúgio, em breve tempo, dos doentes pobres e desvalidos. Seguem-se 178 assinaturas com o valor doado variando de 500 $ 000 (quinhentos mil réis) a 5 $ 000 (cinco mil réis) e totalizando 27.080 $ 000 (vinte sete contos e oitenta mil réis).

Pela lei estadual de 16 de julho de 1918, Campo Grande foi elevada à categoria de cidade e em junho de 1919 reuniu-se, final, um numeroso grupo de inspirados líderes e constituem a Sociedade Beneficente de Campo Grande, elegem o primeiro presidente a pessoa do Dr. Eusébio Teixeira e vice-presidente Bernardo Franco Baís, e aprovam um Estatudo que foi mandado imprimir em Cuiabá.

Não se tem conhecimento de registro a respeito, mas consta que a Intendência destinara a área onde hoje se situa o Estádio Belmar Fidalgo para a recém criada Sociedade Beneficente, não aprovando a sua Diretoria a idéia de ali se construir o Hospital, dada a proximidade de uma unidade de Artilharia, onde poderiam ser dados tiros de festim que sobressaltariam os doentes. Esse agrupamento de Artilharia foi o primeiro contingente militar a se instalar em Campo Grande, desmembrado do de Aquidaudana, e aqui teve, dentre seus oficiais, dois tenentes que galgaram projeção nacional: Antônio José Lima Câmara e Newton Estilac Leal, este como prestigioso Ministro da Guerra.

Interrompido o mandato de primeiro presidente pela sua renúncia, assume o vice-presidente Bernardo Franco Baís que mantido na presidência no período seguinte encerrado a 31 de março de 1925. Foi esse benemérito cidadão, notável filantropo que comprou por dez contos de réis em 20 de janeiro de 1920, escriturando em nome da Sociedade Beneficente, a área de 164,60 por 375 metros, ocupada hoje por todo o complexo Santa Casa. Na sua gestão inicia-se em 1924 a construção do Hospital, de acordo com o projeto do membro da Mesa Administrativo e renomado Engº. Camillo Boni, dotando-o de quarenta leitos, uma sala de cirurgia e todas as demais dependências necessárias. Essa obra, que demandou quatro anos para conclusão, esteve, a partir de 1º de abril de 1925, a cargo do terceiro Presidente da Sociedade, o grande vulto que foi Eduardo Santos Pereira, que a liderou até 31 de março de 1932. Inaugurado o Hospital em dezembro de 1928, passou essa data a marcar o início das atividades da Santa Casa.

Santa Casa – 1928

Pela concretização desse sonho, tornaram-se dignas de destaque, pelo elevado espírito altruísta e dedicação, tantas pessoas notáveis além de Eduardo Santos Pereira, e que representamos nas figuras de Rogério Casal Caminha, João Clico Vidal, Vítor M. Pace, Ignácio Gomes, Dr. Arlindo de Andrade Gomes, Leonel Velasco, Arnaldo Serra, João Evangelista Vieira de Almeida, Engº. Oliveira Mello, Antônio Bacha, Francisco Calarge, Antônio Norberto de Almeida e Abrão Júlio Rahe dentre outros, além do lendário carroceiro José Mustafá, o Zé Bonito. Este homem humilde que residia numa pequena chácara situada em terreno encharcado e próximo da atual Estação Rodoviária, onde mantinha os seus burros e uma vaca leiteira, esse homem, de aparência rude mas de alma luminosa, que sustentava a sua família com o fruto de seu penoso trabalho, escreveu uma das mais comovedoras páginas da história da Santa Casa! Durante quatro anos transportou gratuitamente todo o material da construção: tijolos, pedras, areia, saibro, aterros, madeiramento, telhas, piso, etc.

Razões de sobejo se teve, embora não entendidas por alguns na ocasião, quando se deu o  nome de Carroceiro Zé Bonito ao Auditório do novo hospital em outubro de 1980, na ocupação das atuais instalações.

Morreu pobre, morreu na Santa Casa, deixando como único legado o exemplo máximo de solidariedade humana e desprendimento, razão das homenagens que para sempre haverão de ser prestadas à sua memória.

Desta arte, ao findar o ano de 1928, a cidade de Campo Grande estava dotada de dois hospitais, o da Santa Casa e o Hospital Militar que iniciou suas atividades a 30 de janeiro de 1924, tão logo equipado após o término das obras determinadas pelo Ministro da Guerra Pandiá Calógeras.

Campo Grande crescia a passos acelerados e com a mesma ânsia, até hoje incontida, de crescer para tornar-se um dia a grandiosa metrópole do oeste. Para tanto foram decisivas nessa fase, além da ligação ferroviária completada em 1914, a instalação planejada por Calógeras da 1ª.  Circunscrição Militar e de novas unidades, um Batalhão de Infantaria e um Regimento de Artilharia Misto, após a edificação de seus quartéis.

O comércio se desenvolvia, pequenas indústrias se organizavam, profissionais liberais aportavam, inúmeras famílias de fazendeiros de uma vasta região fixavam residência, enquanto a pecuária se expandia, que em campos nativos, e os trens de ferro carreavam para as invernadas de São Paulo bois aos militares, sem mercado antes da ferrovia.

Todos trabalham com afinco. O pequeno fazendeiro Laucídio Coelho salta à frente com sua insuperada capacidade, seguido de Elisbério de Souza Barbosa e muitos outros. Até o carroceiro Naim Dibo torna-se comerciante, grande comerciante e forte fazendeiro.

Laucídio Coelho, Elisbério Barbosa e Naim Dibo doam à Santa Casa o valor necessário à construção de novos pavilhões que por longos anos abrigaram os serviços de Maternidade, Isolamento e Infantil.

No período de 1º de abril de 1932 a 31 de dezembro do mesmo ano, ocupou a presidência da entidade o Dr. Eduardo Olimpo Machado, sucedido pelo ilustre associado Juvenal Alves Corrrêa, que a exerceu de 1º de janeiro de 1933 a 31 de dezembro de 1946, por treze e profícuos anos.

Mas a Santa Casa se via forçada a se ampliar para continuar a suprir a carência de leitos para a população civil que não dispunha de nenhum outro ambiente hospitalar. Surge então a figura de outro imigrante que aqui chegou muito jovem e galgou um brilhante conceito, graças a sua finura de trato e ao seu dinamismo, e que por largos anos presidiu e sedimentou a Associação Comercial. Era Aikel Mansour, que assume a presidência da Sociedade Beneficente de Campo Grande em 1º de janeiro de 1947 e a exerce até 31 de dezembro de 1961, período em que edifica o primeiro pavilhão de dois pisos com vários quartos e centro-cirúrgico de quatro salas, além do amplo ambulatório de frente para a Avenida Mato Grosso.

Um prestigioso líder do comércio, José Nasser, sucede a Aikel mansour em 1º de janeiro de 1962, exercendo a presidência até a 31 de dezembro de 1972, e em cujo mandato inaugura um pavilhão de três pisos acoplado ao anteriormente concluído na gestão de Aikel Mansour.

Fases áureas essas, de muito trabalho e abnegação, infelizmente seguidas de um período de descuidos e anarquia financeira, a par de planos já compromissados e visando grandes  instimentos em torre de consultórios médicos e blocos de apartamentos residenciais  projetados no restante da área da Santa Casa, estranho cometimento para uma Entidade exangue nos seus 45 anos de existência, com seus pavilhões mais antigos seriamente deteriorados, sem Laboratório de Análises Clínicas e tendo uma velha geladeira como Banco de Sangue, Radiologia dotada de dois arcaicos aparelhinhos de raios-x, um Philips de 100 MA e outro de 200 MA, acanhada cozinha e lavandeira  de enormes rachaduras, um centro de hidratação infantil para indigentes e segurados do INPS e Funrural lotado no pavilhão pioneiro, de forro apodrecido e instalações sórdidas, onde se registrava um alarmante índice de óbitos!

A maioria das acomodações especiais composta de dois quartos conjugados e servidos pelo mesmo banheiro que incluía uma grande banheira, concepção de há muito superada e condenada em ambiente hospitalar. Inesquecível, pela aflição que a todos invadia, a visão da caixa d água elevada de 50.000 litros, terrivelmente inclinada sobre um dos pavilhões e que, na opnião de três engenheiros consultados, poderia tombar a qualquer momento!

Atrás, uma grande área anexa sem muros e tomada de um alto capinzal onde marginais se escondiam! Essa era realmente a Santa Casa nos primeiros dias de 1974, com seus 360 leitos, fruto que foi do sonho, do esforço, do talento, da abnegação e do sacrifício de tantos e que, ameaçada pelo desastre, decide reencetar a trilha gloriosa pela qual vinha sendo conduzida pelos patriarcas do passado que tinham um só compromisso: o de servir aos supremos interesses da nossa gente.

Cidadãos do bem esses que, acalentando um porvir de fraternidade, puderam levantar um monumento de fé e altruísmo, graças ao emparceiramento e à devoção de legítmos sacerdotes da Medicina que revenciamos na citação de alguns: Vespasiano Martins, César Galvão, Costa Manso, Fernando Corrêa da Costa, Nicoulau Fragelli, Arthur de Vasconcelos Dias, Peri Alves Campos, Arthur Jorge, Alberto Neder, Walfrido de Arruda, Amando de Oliveira Filho, Alfredo Neder, Ito Mariano, João Rosa Pires, Alcindo de Figueiredo, Marcílio de Oliveira Lima, Manoel Guimarães, Cícero de Castro Faria, Ademar Barbosa, Rubem Teixeira, Cariolano Ferraz, Hélio Mandeta, João Basmage, Elias Nasser Neto, William Maksoud, Tsuneo Shinzato, João Naidor da Silva, Kalil Rahe, Fernando Vasconcelos, Salvador Miranda de Sá Jr., Nélson e Roger Buainaim, Dioscoro Gomes, Cláudio Fragelli, Radi Jafar, German Mejia Rios, Kleber Vargas, Joel Daroz, Hugo Pereira do Valle, Fernando Fernandes, Astrogildo Carmona, Edgar Sperb, Guaraci Vieira de Almeida, Vitor Rabelo Gonçalves, Benjamim Asato, Hadib Fahed, Juvenal Alves Corrêa Neto, Fauzi Adri, Geny Nacao, Yassuko Ueda Purisco, Samuel Chaia, Roberto Yamaciro, Delmiro Pedrosa, Silvio Torrencilha, Yassuo Oshiro, Roberto Nachif, Nei Lacerda Faria, Olney Galvão, Alberto e Rafael Cubel, Sylvio Muller, Fábio Ribeiro Monteiro e Isidoro Dias Lopes de Oliveira.

Esses eram, até o final da década de 1960, os médicos da Santa Casa que nos primeiros vinte  anos da admissão no Corpo Clínico assumiram com extrema dedicação o tratamento clínico ou cirúrgico dos pacientes não pagantes, então denominados indigentes.

A história da Santa Casa é também a história da participação de se Corpo Clínico, das Irmãs da Congregação de Nossa Senhora Auxiliadora, dos seus anônimos funcionários e cooperadores. A rica história de amor ao próximo!